27/04/2005 23:20
O aeroporto fica à pouco mais de 30 minutos da capital, como acontece em São Paulo; o trânsito é constante, bem como a agitação no centro da cidade da mesma maneira como ocorre na metrópole paulistana. Também há buzinas, confusão e obras de concreto. No entanto, as semelhanças entre Buenos Aires e São Paulo se resumem a poucos elementos. A capital argentina é bela com seu pretenso ar europeu e extrema boemia.
Fiquei 5 dias em Buenos Aires. Foram minhas tão esperadas férias, que se tornaram quase uma novela. Fui compensada por dias de céu azul, temperatura agradável e muitas descobertas. Posso dizer o nome de praticamente todas as pessoas com quem falei: Victor, o choffer do translado até o hotel, Gustavo, o gerente do Waldorf, Pablo, colega de andar, Rosario, a guia portenha que falava português (ou pensava que falava...). Além de apreciar o charme europeu decadente de Buenos Aires, conversar com as pessoas que vivem o cotidiano da cidade foi um grande atrativo.
O portunhol de quinta foi dando lugar a um espanhol que se fortificou nos dias seguintes. Lembrei até como se diz feijão em castelhano frijoles quando conversava com José, garçom de um restaurante de Puerto Madero que tentava entender porque os brasileiros tinham que pedir arroz e feijão pra comer o tal bife de chorizo.
Por falar em comida, devo enfatizar que se come muito bem em Buenos Aires. Isso me deixou muito feliz e, para ser sincera, demorei a me acostumar com o fato de que um prato me deixaria sempre empaturrada. Não raro, os restaurantes têm meia porção em seus cardápios. E se alguém for fanático por carne e batata frita, deve viajar para a Argentina imediatamente: de cafés a lanchonetes, passando por restaurantes italianos ou de frutos do mar todos servem o famoso bife de contra-filé (chorizo) com batatas fritas (as papas fritas). Confesso que enjoei um pouco da combinação...
Meu hotel era bem no centro. Duas ruas abaixo da famosa Calle Florida, espécie de galeria a céu aberto que concentra 2000 lojas em cima de um calçadão. Estive lá todos os dias. Minha rua se chamava Paraguay e na esquina de baixo tinha um pub (olha como me perseguem). Eles não cobram consumação pra entrar, mas também não tem banda tocando clássicos do U2 lá dentro.
Buenos Aires é toda plana. Tem ruas anchas ou largas como a 9 de Julio (a mais ancha del mundo anuncia a guia do city tour) e carros muito velhos. A explicação me foi dada por Mariel, a vendedora da loja de cueros na qual eu enterrei meu cartão de crédito: quando a paridade peso-dólar existia, era mais barato importar tudo e por isso não havia indústria nacional que conseguisse enfrentar a concorrência dos produtos estrangeiros. Em conseqüência disso, a Argentina quase não tem fábricas. Comprar carros na maioria brasileiros é para poucos, na atual situação do país.
O drama enfrentado pelos argentinos com relação a sua condição econômica pode ser visto na cara das pessoas. Perto de nós, brasileiros, eles parecem tristes. Mas na verdade são apenas fechados ou sisudos. Muitos foram aqueles que em conversas desabafaram falando da situação negra pela qual o país passou recentemente. Eles estão com o orgulho um pouco ferido, isso é fato. Fazer sala para turistas não é o forte dos portenhos; em alguns momentos eles pareciam incomodados com o fato de que o mundo todo jogava na cara deles a impotência de fazerem o mesmo. Mas, de modo algum, pode se dizer que o argentino é rude: ele pode ter sido arrogante, no passado, quando o peso tinha o mesmo (falso) poder do dólar. Pelo menos para mim, eles pareceram muito compenetrados, centrados em si mesmos, mas loucos para desfrutar a vida, tal como nós brasileiros fazemos de uma forma a qual nem percebemos. Acredite, é bem assim.
Existem muitas pessoas pedindo dinheiro nas ruas, principalmente onde os turistas são maioria. As crianças que pedem monedas são insistentes e até podem te coagir. Deve-se ficar esperto com bolsas e máquinas, porque como eu mesma percebi, brasileiros, ingleses, mexicanos ou qualquer tipo de turista salta as olhos dos argentinos. Eles sabem que você não é de lá antes mesmo que abra a boca.
Por falar em estrangeiros e argentinos, minha observação (superficial) notou que as brasileiras são muito mais bonitas que as argentinas. Elas se vestem de maneira conservadora, apesar de estarem alinhadas usando lenços, casacos e cachecóis. Em matéria de moda, as portenhas precisam urgentemente da criatividade brasileira... nosso estilo se destacava, afinal decotes, roupas justas e assessórios eram outra maneira de nos identificar. Já os argentinos me pareceram mais guapos (ufa, ainda bem!). A imensa maioria deles usa aquele penteado mullets estilo Xororó, tal como vemos nos jogadores de futebol. Quando não é assim, estão carecas. A explicação novamente me foi dada por um argentino durante conversa: por causa do frio, os homens usam muito boné e chapéu. A umidade do frio no coro cabeludo faz com que os homens da capital sejam muito mais calvos do que aqueles que moram no campo e convivem menos com a tal umidade, por exemplo.
Ainda falando dos homens portenhos, observei que eles são magros e, muitas vezes altos. O alto que eu digo é algo em torno de mais de 2 metros de altura! São também elegantes e perfumados. Sejam executivos ou estudantes, eles caminham pelas ruas com roupas alinhadas e olhares discretos.
Os argentinos são tímidos. Alguns arriscaram piadinhas de caráter engraçadinho comigo, mas foram minoria. Eles olham bastante, mas mesmo passando no meio de um bando de homens será difícil escutar aqueles adjetivos tão comuns ouvidos aqui (gostosa, delícia, popozuda, etc). Ainda bem. Mais um ponto a favor para a cidade.
A boemia de Buenos Aires está no centro velho, com suas milhares de lojas, teatros e cinemas, como também nos cafés, conhecidos como confíterias, ou nos restaurantes que colocam suas mesinhas na calçada. Estes existem aos montes... e deixam nós, paulistanos, rachando de inveja. Lá os argentinos se encontram para beber café, capuccinos, Quilmes, ou água com gás (aeeee) sentados de fronte para praças limpíssimas e muito bonitas. Os argentinos mostraram ter mania de limpeza. Ao caminhar pelas ruas notei muitos vidros sendo limpos, vassouras se agitando, latas de lixo tampadas e, veja bem, ninguém jogando lixo no chão. Praças não tem plástico ou bitucas de cigarro espalhadas em meio a grama. Afinal, é lá que os casais da cidade se deitam para namorar, as moças se juntam para conversar, os jovens vão para tomar sol, ler ou passear com o cachorrinho.
Vi muitas mulheres sentadas nas mesas aproveitando suas horas completamente sozinhas. Jovens ou senhoras, elas estavam em todos os restaurantes que fui, em todos os horários que estive. Sinceramente, achei isso o máximo. Aqui no Brasil fazemos tudo aos pares: almoço, cafézinho, sorvete... as portenhas me pareceram independentes e seguras de sim, diferentes da imagem novela mexicana que eu tinha na minha cabeça.
Enfim... cinco dias foi muito pouco para conseguir aproveitar 10% do que a cidade tem a nos oferecer. Só que já foi suficiente para eu sentir saudades da minha terra, do jeito brasileiro de se relacionar e até de falar português. A boemia inerente e a conservação das milhares de construções centenárias enche os olhos. Tudo é muito rebuscado e combina perfeitamente com o ritmo que rege a cidade o do tango.
Os artistas de rua que dançam em ritmo sensual por quase todas as partes da cidade dão o tom da vida em Buenos Aires. A sanfona que toca insistentemente La Cumparcita famosíssimo tango de Gardel serve para reger o flutuante vai-e-vém das pessoas. Como definiu uma argentina com quem fiquei conversando no balcão do café, os brasileiros são como o samba: alegres, mesmo quando não têm nada. É uma alegria nata, adequada com o samba, mesmo quando este fala das dores nacionais. Já o tango é melancólico, fala dos dramas da alma e das insatisfaçóes da vida. Os argentinos demoram a se dar por satisfeitos e enquanto aqui nós sambamos pra lidar com os percalsos da vida, lá eles sentam, escutam o som lamentoso das sanfonas e choram.
Na hora de embarcar de volta para casa, tive que apelar para o óculos escuros. Olhar pra cima e pedir logo para o momento do embarque chegar. Sabe quando a gente olha pra cima a fim de evitar a lágrima de cair? Fiquei triste de partir. Estava me afeiçoando à cidade. Estava quase aderindo ao estilo do tango... Apesar de não saber quando exatamente, voltar a Buenos Aires é plano certo no meu futuro.
Lugares que você não pode deixar de ir... por Lu
Café Tortoni
É o café mais antigo da cidade, criado em 1878. Resume todo espírito de Buenos Aires: a boêmia rebuscada. Desde as cadeiras até as cortinas, tudo é mantido como foi criado. Nas paredes, fotos que mostram a construção da cidade. Num canto, sentados em uma mesa, estão Jorge Luís Borges, Carlos Gardel e Afonsína, figuras idolatradas na Argentina. Trata-se de bonecos de cera, os quais à primeira vista parecem ser pessoas de verdade. No fundo, mesas de bilhar. Do outro lado, o melhor da minha estada em Buenos Aires o show de tango. O café oferece apresentações que fogem daquelas criadas para turistas. No domingo, vi a banda (piano, violino, sanfona e baixo), um cantor vestindo terno risca de giz e um casal de dançarinos. Foi maravilhoso. Emocionante. Só assim para sentir o que o tango significa na cultura argentina e como ele é dramático, desesperador, sensual. Detalhe: fui cantada pelo cantor de tango. Imperdível, imperdível, imperdível.
Brocolino
Diante de tantos e tantos restaurantes especializados em carnes, minha primeira sugestão de comida é um lugar especializado em massas. É uma delícia. E não é caro. Fica numa rua chamada Esmeralda, perto da Calle Florida. Eu pedi talharim ao molho Maradó nome dado em homenagem adivinhem a quem... Protelei pra pedir este prato, mas o funghi e a combinação de azeitonas e tomate me venceram. Gostei tanto que fui lá sábado e domingo. Delicioso!
Florida Garden
Cafés em Buenos Aires tem aos montes. Quase tanto quanto taxi circulando (35 mil carros por lá). Exageros meus à parte, você pode tomar café a qualquer hora do dia. Esses lugares, chamados Confiterias, servem pratos quentes, saladas e doces, além de bebidas variadas de vinho a cerveja. Este, especificamente, é um dos melhores e mais tradicionais da cidade. Fora que o café vem com um prato de biscoitinhos viciantes maravilhosos. Eu fui todos os dias e era um dos meus lugares preferidos. O vidro que cerca o lugar vem bem a calhar, porque assim dá pra ver o movimento masculino na rua.
Recoleta
O bairro mais glamouroso da cidade deve ganhar uma tarde inteira (no mínimo) para ser conhecido. Tem milhares de restaurantes com mesinhas na calçada, cafés, sorveterias (a Freddo fica lá) e lojas de grife. Se parece com o nosso Jardins aqui, só que mais limpo, organizado e bucólico. Tem uma praça bem grande em frente ao cemitério onde está enterrada Evita. Ao lado do cemitério tem uma linda igreja, chamada Nossa Senhora do Pilar. Mais abaixo, há outra galeria toda estilosa. Lá tem mais restaurantes, incluindo um Hard Rock Café, e mais lojas. Super charmoso. Nas ruas do bairro é possível encontrar lojas Cartier, Louis Vitton, Armani... e um hotel maravilhoso cujo quarto custa (o mais barato) a bagatela de 480 dólares, para o casal. Vale uma foto.
Calle Florida
Quer comprar cueros? Vá lá. Cashmeres ou cachecóis? Também. Alfajor Havana, chaveiros, camisas do Boca Juniors, peles, suvenirs, roupas da Zara, livros e tudo mais que sua mente puder imaginar. São 2000 lojas e um shopping lindo, chamado Galerias Pacífico, nos quais tem de tudo, em todos os preços. Depois de muito pesquisar pela cidade, cheguei à conclusão de que as melhores oportunidades de comprar e pechinchar estavam lá, há duas ruas do meu quarto de hotel.
Plaza de Mayo
É onde fica a Casa Rosada e mais um monte de prédios históricos. Tudo extremamente bem conservado. A praça também é muito bonita e arrumada. Há grande circulação de gente. Alguns metros antes do palácio do governo, tem uma barreira de ferro que a polícia fecha quando há manifestação.
Puerto Madero
Por fim, na minha lista de prioridades para passear, está este bairro criado em 1994 pelo governo Menén. Com investimento privado, reformou-se um monte de galpões e docas defronte um anal que dá no Rio da Prata. O espaço se tornou um centro gastronômico elegante (caro também, se comparado com outras partes da cidade). O canal que divide os dois lados do bairro não tem cheiro algum (ohhh, mais uma para deixar nós paulistanos morrendo de inveja) e fica todo iluminado. Programa típico dos enamorados, mas também escolha agradável para um sábado a noite, onde é possível ver senhores, crianças, jovens andandando despreocupados pela margem do rio, até altas horas da madrugada. Um programa que precisa ser feito.
E você pode ir ainda...
- Ao Ateneu
Livraria mais do que estilosa que fica na Calle Florida e tem outra filial na Avenida Corrientes. É super aconchegante, enorme, e mostra como o hábito de ler é um dos preferidos dos argentinos. Fora que o ambiente é muito mais gostoso do que a nossa Saraiva, por exemplo, que pra agora parece a fast food das livrarias
- Galerias Pacífico
É um shopping lindo. Nem tem cara de shopping. Do lado de fora e de dentro, tudo brilha muito, com pedra, luzes e fontes. Apesar de ter umas coisas meio caras, sabe, vale a pena conhecer. No último andar tem o Museu Jorge Luís Borges. No espaço há exposições desta vez era do fotógrafo francês Cartier Bresson além de uma livraria e material de informação sobre o escritor argentino.
- Caminito
Qualquer city tour que se prese irá levar o turista até esta parte da cidade. Melhor que seja assim, pois por ser uma área mais afastada do centro, não oferece tanta segurança como as outras. Caminito é o nome de uma casa de shows; nas ruas de seu entorno é que surgiu o tango, dança marginal inicialmente dançada somente por homens. Como nenhuma mulher direita cederia ao ritmo do tango, o jeito encontrado pelos homens foi dançar com as prostitutas locais. Essa região fica em La Boca, bairro muito pobre. As casas têm paredes coloridas, porque eram feitas, no passado, de chapas de ferro recolhidas num cais que ficava ali perto. Esse colorido marca o lugar. Lá também tem milhares de lojinhas e suvenirs pra serem comprados.
- La Bombonera
O estádio do Boca Juniors vale uma visita. Na rua, você faltalmente irá encontrar dançarinos de tango, muitas lojas do Boca e as cores do time espalhadas por todos os lados (azul e amarelo). O city tour também contempla esse passeio; o bairro, apesar de ser a casa do Boca, é muito pobre. Maradona lá é ainda mais rei do que no resto da cidade.
enviada por Lucy
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