07/01/2005 00:38

Houve um tempo na vida do individuo feminino em que comer era a maior festa - e não a maior tortura. Quando se é criança, só o que se ouve de mães, tias e outros familiares é "come filhinha...". Ou então, "filha, vc não vai comer nada?". A menininha pode apostar alegremente com seus irmãos quem come mais, pode se esbaldar na batata frita ou ficar com a cara suja de sorvete. Aquilo chamado caloria, nome que você só descobre existir anos depois, vai parar direto nos seus cabelos (já reparou como cabelo de criança cresce rápido?).
Mas passa o tempo e eis que a puberdade e todas as suas encucações massacrantes se apoderam da vida da pobre jovenzinha. Algumas, ficam tão paranóicas com a fixação pelo peso ideal (o qual não se sabe porque, significa estar 20 quilos abaixo da medida de sua altura) que fazem verdadeiros jejuns alimentares.
No colégio, gordinhas e magricelinhas são zoadas. As baixinhas e as altonas também. Então digamos que não tem muita escapatória. Depois dos 16 anos, no entanto, qualquer dobrinha é vista com terror, pavor. Se torna motivo de depressões e de vergonha. Hoje, e parece-me que cada dia mais, o ideal de beleza bombardeado na na mídia (aquele ser monstruoso maligno e sem forma) faz você se sentir gorda mesmo que passe o dia inteiro a base de granola e água. Não é à toda que explodem os casos de meninas sofrendo de anorexia ou bulimia. A infelicidade está em cada garfada que as mulheres, jovens ou não, colocam na boca. É quase como se elas estivessem assassinando suas chances de serem belas.
Na minha adolescência não sofri com esse tipo de coisa. Não era a mais magra da turma, nem a mais gordinha. De certa forma, o mundo era um pouco mais ingênio e menos artificial, sem as adolescentes pintadas ou as jovens siliconadas da atualidade. A impressão que tenho é que, apesar de ideiais de beleza sempre existirem, eles nunca foram usados como sinônimo de felicidade, tal como está acontecendo hoje. A imagem que se propaga é a de que corpo em forma (mas que forma?) significa aceitação. Qualquer pessoa que saia desta fôrma, parece defeituosa.
Junto a isso, vemos homens e mulheres cada vez mais supeficiais. É um fenômeno que está ligado a essa exaltação absurda de um ideal de beleza propositadamente inatingível. Quanto se consome de produtos para emagrecer, alimentos light ou diet, horas de ginástica, sessões de emagrecimento rápido? As pessoas se alimentam mal, vivem mal e estão sempre insatisfeitas. É tudo tão falso quanto as propagandas de cerveja que mostram mulheres magras ao lado de inúmeras latas da bebida. Desculpe, mas dois proveitos não cabem em um saco só, já diriam nossos pais.
A mulher é a principal vítima desse barato todo. Ela está sempre sendo avaliada não só pelos homens como por outras mulheres mesmo. Hoje em dia, nenhuma de nós consegue mais comer em paz, sem contar a quantidade de calorias do prato ou sem se sentir culpada por repetir a sobremesa. É uma veradeira ditadura, da qual ninguém será mais capaz de se livrar. Pior é pensar que as pessoas, cada dia mais, julgam as outras pelo quanto elas pesam, como se não bastasse suas consciências, massacrando-as por causa do próximo pedaço de pizza ou do copo de refrigerante que não é diet.
Comer é um ato de prazer. Claro que exige auto controle, como tudo que é prazeroso. O que se vive hoje é quase um flagelo diário: tudo que se come passa primeiro pelo crivo do seu cérebro, que dirá se você está sendo gulosa e depois pelo seu estômago, que pede por alimento. É só reparar como isso já se tornou uma constante. Eu da minha parte continuo nem gorda nem magra, fazendo esforço pra comer sem sentir culpa. Mas confesso que minha sobremesa hoje tinha uma tarja light no alto da lata.
enviada por Lucy
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado ::
(O que é isso?)